Fizemos história

Com bastante atraso, após uma luta que durou mais de 10 anos, a editora Abril, através do Roberto Civita conseguiu: surgia a primeira edição da National Geographic em português - português brasileiro. Maio de 2000. Assinei com o Diabo sem nem mesmo ler o contrato. Ao retirar o plástico da embalagem da edição número 1 descobri que tinha uma capa falsa – um tubarão branco – e na original, a grande reportagem “Rasante sobre a África”. Devorei cada palavra e descansei longos minutos sobre cada fotografia. Voei com o autor pelo continente que para nós brasileiros era apenas uma terra de fome e guerra. E ali, de certa maneira, descobri que África não era um país e sim um continente formado por mais de 50 países, com histórias e culturas próprias.  Segui lendo em um só fôlego as 174 páginas(!) da revista. Cento e setenta-quatro porras de páginas que abriam um mundo novo para mim. E ser leitor da NG era um caminho natural para quem já viajava nas aventuras do Tintin e seu fiel cão Milu.

No Brasil a revista nasceu tarde, coincidindo, vejam vocês, com a ascensão da Internet. Somente pessoas como Civita seriam teimosas o suficiente para lançar uma revista de nicho num país conservador e que dedica tão pouco tempo ao hábito de ler. Era aquilo que eu queria: documentar o mundo à minha volta. Comprei uma câmera Canon EOS 3000 (nada digital, era tudo com filme ainda) e enquanto escrevia minha monografia para conclusão do curso em economia, invadi umas instalações da Petrobras na ilha de Madre de Deus, na Bahia, para mostrar os riscos que a população local vivia ao conviver cercada de tubulações e combustíveis. Ganhei a nota máxima porque a banca examinadora achou surpreendente eu ter usado a fotografia em um trabalho acadêmico sobre economia.

Após apenas uns cinco anos assinando a revista, fui deixando-a de lado enquanto tentava desesperadamente concluir um novo trabalho acadêmico, desta vez uma dissertação de mestrado. Da mesma forma que na graduação, inspirado pela National usei a fotografia para fortalecer minhas ideias acadêmicas. Percorri todo o sertão baiano, sergipano e parte de Alagoas e Espírito Santo fotografando comunidades rurais que utilizam energia solar.

Mas já era adulto e as responsabilidades, compromissos e boletos se acumulavam. Eu não tinha mais tempo para sonhar. E a partir dali uma série de decisões me afastariam de mim mesmo e de quem eu queria ser.

Foram anos terríveis. Mudanças de casas, de países, de trabalhos, de estudos, de climas, de namoradas. Vendi minha Canon e comprei uma câmera digital bem vagabunda. Até que o terceiro inverno de Santiago do Chile, onde eu estava morando, me deprimiu. Esporadicamente eu comprava edições da NG em espanhol, mas sem grandes interesses. Não avisei nada ao meu orientador da tese e deixei o doutorado em Estudos Americanos de lado e voei para o calor de Salvador. Fiquei alguns dias na casa dos meus pais. Como eles guardavam tudo e mantinham meu quarto como eu havia deixado quando decidi sair de casa, aproveitei para folhear as edições antigas e que eu tinha deixado para trás. Foi um reencontro.

Para continuar trabalhando na minha tese, eu precisava ir até Medelín, na Colômbia, entrevistar alguns atores políticos que conseguiram reerguer a cidade com apoio internacional após anos de violência e uma imagem fortemente associada ao cartel das drogas conhecido com o mesmo nome. Para a viagem decidi comprar uma câmera Canon Rebel XSi com incríveis 10 megapixels (hoje, qualquer celular chinês tem isso) e uma lente “do kit”. Tenho “o kit” até hoje. Após a viagem até Medelín, segui uns conselhos de um amigo italiano e fui até Cartagena das Índias. Fiz amizades com uns hóspedes do hotel e bebemos mojito por toda noite. Na manhã seguinte, após dormir nas areias brancas do Caribe tentando curar a ressaca, acordei: quero ser fotógrafo.

Eu estava absolutamente cansado de discussões acadêmicas onde me sentia extremamente arrogante por escrever teorias sobre pessoas, países e governos que eu nem mesmo conhecia. Eu queria o mundo da National Geographic, onde era preciso sair do conforto, ir muito fundo nas histórias e onde tudo era absolutamente muito humano.

Voltei para o Chile, fechei a porta que eu tinha aberta para trabalhar na ONU/CEPAL no departamento de Comércio Internacional e comuniquei a novidade ao meu orientador. Ele riu, claro. Disse para eu tirar uns dias de férias e na volta iríamos escrever um artigo para um congresso que nem lembro mais onde era. Eu nunca mais voltei.

Fotografei tudo o que podia e aparecia na minha frente. Consegui minha primeira exposição fotográfica com apoio institucional da embaixada do Brasil e um patrocínio de um sujeito rico que adorava fotografias. Pensei “vai ser muito fácil viver de fotografia”.

E então cai na realidade.

Sem trabalhos, usei a grana que ainda me restava e voltei para o Brasil. Fui para Florianópolis e depois Curitiba. Não entrava absolutamente nenhum dinheiro. Aos poucos consegui pequenos trabalhos que mal pagavam o aluguel de um apartamento com paredes de isopor e que quando chovia molhava todo o espaço. Nenhum objeto podia ficar no chão sob o risco de ser perdido para sempre. Certo dia olhei meu saldo bancário e vi que só me restava dinheiro para mais uma refeição. Decidi comprar uma garrafa de vinho e um sanduíche. Ao acordar uma boa notícia me aguardava. Um milionário filipino com casa em Jurerê Internacional havia comprado 2 fotografias minhas que haviam ficado em uma galeria em Florianópolis para decorar sua mansão de não sei quantos quartos. Aquele dinheiro me permitiria viver mais alguns meses sem precisar voltar para a casa dos meus pais, que naquela altura já não sabiam o que esperar.

Então veio a crise hídrica de São Paulo em 2014. O Greenpeace em parceria com a Agência Pública fez uma chamada de microbolsas de investigação jornalística que iria premiar uns 4 jornalistas que apresentassem as melhores pautas. Dediquei dois meses de estudos sobre o tema e descobri que a crise mais grave estava na cidade de Ilha Solteira, na fronteira com o Mato Grosso do Sul. Achei aquilo mágico. Eu nasci em Ilha Solteira (meu pai trabalhou na construção da usina) e eu nunca havia estado lá desde que saímos quando eu tinha dois anos de idade. Perdi o concurso, mas comecei a renascer.

O que fazer com toda aquela pesquisa? Voltei a folhear as edições da National Geographic que eu seguia comprando quando a grana permitia. Lá estava, logo abaixo do editorial, o nome e o e-mail do editor. Decidi arriscar e mandei a pauta para ele. Poucos dias depois, a resposta: “Muito obrigado pela iniciativa, pela pauta bem fundamentada. Sem dúvida é uma história que poderia estar na revista, desde que bem documentada. Por outro lado, há problemas de ordem prática. Desde o começo do ano, não temos recursos para investir na produção de reportagens. Com material aprovado, podemos pagar pela reportagem (texto e fotos).”

Puta que pariu! Eu tinha um sim, um sinal positivo! Eu ia fazer uma reportagem para a National Geographic! Mas faltava um detalhe: eu não tinha dinheiro para ir a São Paulo fazer o trabalho. Decidi então ligar para um amigo de infância que eu sabia que tinha alguma grana. Expliquei a história para ele e falei da oportunidade. Ele estava ocupado e não podia conversar muito. Me pediu o número da conta e depositou o dinheiro. Sou grato demais por tamanha confiança.

Fiz as fotos, entrevistas e escrevi o texto final, mandei para o Ronaldo (editor) e quatro meses depois veio a confirmação: iriam publicar a reportagem. Em maio estava nas bancas e livrarias. Recebi o pagamento e usei o dinheiro para pagar a dívida com o meu amigo. Mas o melhor ainda viria depois: a minha reportagem foi vencedora do Prêmio Petrobras de Jornalismo. E na noite de gala ainda conheci a editora da Agência Pública, a Natalia Viana, que havia recusado a minha pauta. Uma querida e das melhores profissionais que já conheci no jornalismo. E sou grato a ela por ter recusado, do contrário talvez eu nunca teria dado início a esta relação com a National Geographic. Fizemos muito mais histórias juntos. Mariana, Complexo do Alemão, charutos da Bahia, Iraque, etc. Com a grana que fui ganhando, comprei em sebos as edições que ficaram para trás. Hoje tenho todas, desde a número 1. Catalogadas e preservadas.

A cada vez que vou a São Paulo faço questão de almoçar com os editores: Ronaldo (editor chefe), o Sakai (arte) e o Miguel (on-line) no mesmo restaurante de sempre, o Seo Gomes. Quase sempre as notícias já não eram boas. As dificuldades de seguir publicando em meio físico com custos elevados, poucos anunciantes. Eles lutaram até hoje. Agora acabou. A revista não mais irá circular depois de novembro de 2019. Um total de 232 edições feitas com coragem, luta e amor pela História humana. E isso só foi possível porque a revista foi cercada de talentos. Gente que viajou por todo o Brasil profundo para trazer aos leitores a essência deste país.

Alguns podem achar que somos românticos – e somos mesmo! –, mas a verdade é que o meio digital nunca conseguirá substituir o prazer de folhear páginas e descobrir histórias. Tocar é algo muito humano, como somente a National Geographic pode ser.

Nestes tempos de obscurantismo, de tentar reescrever a história com ideologia, na crença que a Terra é plana e as mudanças climáticas são uma grande mentira. Dá uma tristeza danada este fim.

A revista salvou minha vida. Me tornei quem eu queria ser. E todos nós fizemos história.






Marcio Pimenta | Photographer

Marcio Pimenta is a freelance photographer and journalist based in the South of Brazil.
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